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Estado Geral

De Eduardo a Flávio, EUA se consolidam como base da direita brasileira

Alinhamento ideológico com Trump explica a escolha pelo país, mas especialistas afirmam que a proximidade não garante o fortalecimento político do grupo

Um ano e sete meses depois de seu irmão pedir licença do mandato de deputado federal e se fixar nos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro (PL-RJ) também deixou o Brasil após receber uma ordem judicial para a entrega de seus passaportes. O ex-candidato à Presidência, investigado por lavagem de dinheiro e irregularidades no financiamento do filme Dark Horse, desembarcou nesta terça-feira (27) no país norte-americano.

No mesmo dia da saída de Flávio, o governo dos Estados Unidos afirmou que concederia vistos ao senador e sua família, assim como fez com Eduardo Bolsonaro, que recebeu um green card de residência permanente em julho deste ano. Desde então, o ex-deputado atuou em Washington para articular sanções contra autoridades do Judiciário brasileiro.

Devido ao alinhamento ideológico com a gestão Donald Trump, os Estados Unidos se estabeleceram como um refúgio da extrema direita brasileira, o que não necessariamente favorece politicamente esse grupo, afirma Paulo Correa, doutor em Ciências Políticas e professor de Relações Internacionais na Universidade Federal do Amapá.

Correa analisa que o usufruto de uma base nos EUA pode influenciar a política interna brasileira, a exemplo das articulações feitas por Eduardo Bolsonaro junto ao governo Trump para sanções no Brasil. Além disso, o fato de Trump não ter reconhecido a eleição de Lula mostra que essa influência é exercida. E se tratando da maior potência mundial, isso tem um efeito simbólico substantivo, diz.

Entretanto, o professor relembra que as lideranças recentes que buscaram abrigo em governos de extrema direita não necessariamente voltaram mais fortalecidas. Pode ocorrer um efeito rebote negativo, e um exemplo é a própria derrota de Flávio Bolsonaro, depois das articulações do irmão.

Karina Lilia Pasquariello, cientista política e professora da Universidade Estadual Paulista, avalia a saída de Flávio como uma tentativa de repercutir a eleição para tentar manter sua força política. Ainda não sabemos qual vai ser efetivamente a força dos outros membros que ganharam as eleições: Carlos, Jair Renan e Michelle Bolsonaro. O Carlos já sabemos que não tem a mesma visibilidade de Flávio e Eduardo. A Michelle parece ter maior expressão política, mas ela tem atritos com parte da família, opina a professora.

O que é inusitado no momento atual, explica Pasquariello, é o fato de o presidente Trump não apenas acolher o senador brasileiro, como também assumir seu discurso de que as eleições no Brasil teriam sido fraudadas.

Para Trump, a aliança com a família Bolsonaro é interessante a partir do momento em que reafirma a sua liderança de um movimento de radicalização da direita, aponta a professora. Reforça o discurso de Trump de que ele está brigando por aqueles que estão lutando pela verdadeira liberdade.

Segundo ela, o discurso da extrema direita brasileira abre precedentes para o governo dos Estados Unidos possuir maior controle sobre o Brasil. É um interesse de Trump agir de forma a controlar o que acontece e fazer com que os governos ajam de acordo com os seus interesses, principalmente econômicos, explica. Como exemplo, cita a especial atenção dos EUA às descobertas petrolíferas do Brasil na Margem Equatorial.

Big Techs

A aliança entre a extrema direita brasileira e a atual gestão dos Estados Unidos também alimenta os interesses econômicos das big techs, afirmam os professores. Isso porque o atual governo Trump tem proximidade com as empresas de plataformas digitais, e a família Bolsonaro também adota uma perspectiva libertária sobre a moderação de conteúdo no Brasil.

Na Argentina, o governo Milei tem apresentado propostas para facilitar a ação das big techs. Em troca, as plataformas dão um forte apoio. O bolsonarismo também defende a não regulamentação, e essa postura favorece um apoio dessas empresas, explica Pasquariello.

Outros precedentes na América Latina

Buscar refúgio nos Estados Unidos após uma vitória da esquerda já aconteceu antes na América Latina, apontam os especialistas. Na Bolívia, em 2003, o ex-presidente Gonzalo Sánchez de Lozada fugiu após protestos populares conhecidos como a Guerra do Gás e nunca foi extraditado. Ele chegou a ser condenado nos dois países por crimes políticos, econômicos e de violação dos direitos humanos.

Mais recentemente, Maria Corina Machado, principal opositora ao governo de Nicolás Maduro, deixou a Venezuela. A ex-deputada venezuelana saiu do país em dezembro de 2025 para receber o prêmio Nobel da Paz e, embora não tenha se fixado nos EUA, se encontrou com Donald Trump na Casa Branca em busca de apoio político. No domingo (25), ela retornou ao país sul-americano.

À esquerda, os líderes também procuram países com governos de linha política similar. O ex-presidente de Honduras Manuel Zelaya procurou o governo Lula em 2009, após ser deposto por um golpe de Estado. Dez anos depois, Evo Morales se refugiou na Argentina, no governo peronista de Alberto Fernández, após renunciar à presidência da Bolívia.

Fonte | Sbt News
Foto | Reprodução/Redes Sociais

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