Pesquisadores de três universidades identificam potencial estratégico para indústria de alta tecnologia no Brasil
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e da Universidade do Pampa (Unipampa) identificaram rochas com alta concentração de elementos de terras raras em Caçapava do Sul, na Região Central do Rio Grande do Sul.
As chamadas “terras raras” são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a produção de turbinas eólicas, baterias de veículos elétricos, cabos de transmissão, foguetes, equipamentos médicos, armamentos e dispositivos eletrônicos. Apesar do nome, não são minerais escassos, mas costumam estar dispersos na natureza, o que dificulta a extração.
A pesquisa, coordenada pelo professor Marcelo Barcellos da Rosa, do Departamento de Química da UFSM, aponta que os carbonatitos — rochas ígneas raras — presentes na região contêm não apenas elementos de terras raras (ETRs), mas também nióbio e tântalo. Os corpos carbonatíticos de Passo Feio e Picadas dos Tocos apresentam minerais como apatita, pirocloro, monazita-(Ce) e aeschynita-(Ce), todos estratégicos para tecnologias modernas como motores elétricos, turbinas e satélites.
Segundo o pesquisador Lucas Mironuk, doutor em Ciências pela UFSM, os solos da área apresentam concentrações de ETRs até nove vezes superiores às de outras regiões do Brasil, 12 vezes maiores que as de Cuba e seis vezes mais que as da China.
O estudo é financiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e integra o edital Minerais Estratégicos, com previsão de conclusão em dezembro de 2026. A UFSM coordena a coleta e análise de amostras de solo, vegetação e água; a UFRGS realiza a caracterização mineralógica e geológica; e a Unipampa contribui com a identificação de áreas e avaliação ambiental da fauna local.
Potencial e desafios
O Brasil possui a segunda maior reserva mundial de terras raras — cerca de 21 milhões de toneladas, o equivalente a 23% do total global —, mas ainda não desenvolve produção e refino em escala industrial. A China lidera o setor, controlando quase metade das reservas mundiais e dominando as etapas de refino e fabricação de ímãs, segundo o relatório Mineral Commodity Summaries 2025.
“Falta uma cadeia integrada que vá da mineração ao refino químico, além de investimentos, tecnologia e políticas industriais de longo prazo”, afirma Mironuk. Ele ressalta que o país ainda exporta parte dos minerais em estado bruto e depende de nações como a China para as etapas finais de purificação.
Os Estados Unidos têm demonstrado interesse no acesso às terras raras brasileiras. Em reunião com o Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), o encarregado de negócios da Embaixada dos EUA no Brasil, Gabriel Escobar, teria discutido possíveis acordos para aquisição desses minerais estratégicos. Segundo o presidente do Ibram, Raul Jungmann, o tema foi tratado com insistência pelos representantes norte-americanos.
Fonte | G1
Foto | Divulgação/Laboratório de Pesquisas Químicas e Farmacêuticas da UFSM