Cerca de 250 mulheres quilombolas, representando 25 comunidades de nove municípios das regiões Central, Sul e Campanha do Rio Grande do Sul, estão participando do projeto “Mulheres Quilombolas na Luta por Direitos no Pampa”. A iniciativa, promovida pela Fundação Luterana de Diaconia (FLD) por meio do Programa de Educação Antirracista, em parceria com o Ministério das Mulheres, busca criar espaços de aprendizado e troca de experiências para fortalecer a participação política e a defesa de direitos dessas mulheres dentro e fora de suas comunidades.
O projeto foi idealizado diante da falta de oportunidades de formação sociopolítica para as mulheres quilombolas do bioma Pampa, especialmente em seus territórios. Essa carência dificulta sua atuação em espaços de decisão e representação, perpetuando a invisibilidade dessas comunidades, marcada pelo racismo estrutural e pela misoginia. Além disso, as grandes distâncias entre as comunidades e os centros urbanos, somadas às precárias condições de acesso, limitam ainda mais a participação dessas mulheres em debates e reivindicações políticas.
“Quando conseguem estar nesses espaços, muitas vezes são silenciadas, deslegitimadas ou invisibilizadas, o que as impede de defender e acessar seus direitos”, explica Juliana Soares, coordenadora do Programa de Educação Antirracista da FLD. O projeto visa, portanto, enfrentar essas barreiras e promover a autonomia e o empoderamento das mulheres quilombolas.
Metodologia e abordagem
A iniciativa utiliza rodas de conversa como metodologia principal, criando um ambiente informal e acolhedor para o diálogo. Nessas rodas, as participantes são protagonistas, compartilhando vivências, conhecimentos e experiências sobre temas como direitos sociais, políticos e combate ao racismo. “O projeto nos aproxima, fortalece nossos laços e nos mostra que não estamos sozinhas. É uma luta por direitos e pelos espaços que merecemos ocupar”, destaca Dezirre Brum de Moura, assessora do projeto.
As atividades são realizadas diretamente nas comunidades, em locais como sedes comunitárias ou casas de lideranças, onde as mulheres se sentem mais à vontade para participar. “As rodas acontecem ao ar livre, em um ambiente que permite que elas relatem suas histórias, dores e conquistas”, complementa Daniela Santana Ferreira, também assessora do projeto.
Impacto e expectativas
O projeto está dividido em três ciclos, com 25 oficinas em cada um, uma por comunidade. O primeiro ciclo teve início em dezembro do ano passado e já reuniu 133 mulheres. Ao longo de 2024, estão previstos mais dois ciclos, além de dois encontros gerais que reunirão todas as comunidades participantes. A expectativa é que, ao final do processo, as mulheres estejam mais preparadas e fortalecidas para ocupar espaços de decisão e enfrentar a violência política a que estão submetidas.
“O projeto tem sido excelente. Através dele, estamos aprendendo mais sobre nossos direitos. Era exatamente isso que precisávamos aqui na comunidade”, afirma Fiame Ferraz Silveira, participante do município de Aceguá.
Comunidades envolvidas
O projeto abrange comunidades quilombolas de diversos municípios gaúchos, incluindo Cruz Alta e Rincão dos Negros (Rio Pardo); Alto do Caixão (Pelotas); Armada, Bisa Vicente, Cerro da Boneca, Cerro da Vigília, Estância da Figueira, Favila, Faxinal, Filhos dos Quilombos, Iguatemi, Manoel do Rego, Passo do Lourenço, Potreiro Grande e Santa Clara (Canguçu); Tamanduá e Vila da Lata (Aceguá); Palmas (Bagé); Corredor dos Munhós (Lavras do Sul); Ibicuí da Armada (Santana do Livramento); Vacaquá, Rincão dos Negros e Rincão da Chirca (Rosário do Sul); e Cerro do Ouro (São Gabriel).
A iniciativa representa um passo importante no reconhecimento e valorização das mulheres quilombolas, fortalecendo suas lutas por igualdade, representatividade e justiça social.
Foto: Ascom FDL