Com o início das aulas nesta quinta-feira (13), mudanças no currículo, uso de celulares e uniformes obrigatórios marcam o retorno dos estudantes, enquanto escolas ainda lidam com os impactos das enchentes de 2024
O ano letivo começa nesta quinta-feira (13) para cerca de 700 mil alunos da rede estadual de ensino do Rio Grande do Sul, com uma série de mudanças na organização das escolas e na rotina dos estudantes. As aulas estavam previstas para iniciar na segunda-feira (10), mas, por decisão da Justiça do estado, precisaram ser adiadas devido à onda de calor extremo que afetou a região nas últimas semanas.
Entre as principais novidades deste ano, estão o reforço no currículo do Novo Ensino Médio, a restrição ao uso de celulares em sala de aula, a ampliação do turno integral e a distribuição obrigatória de uniformes.
Novo Ensino Médio
Embora a implementação do Novo Ensino Médio tenha iniciado em anos anteriores, a partir de 2025, a carga horária da formação geral básica será ampliada para 2,4 mil horas ao longo dos três anos – anteriormente eram 1,8 mil horas. Além disso, os itinerários formativos, que permitem aos alunos aprofundar conhecimentos em áreas de seu interesse, terão 600 horas de duração.
Para Antonio Padilha, presidente da Associação de Ciclos de Pais e Mestres do Estado, essa mudança corrige falhas da reforma implementada em 2017. “É um avanço, pois permite o desenvolvimento de componentes que haviam sido reduzidos, como química e física. Agora, teremos a oportunidade de trabalhar o novo ensino médio em diálogo com a comunidade escolar”, comenta.
Em 2023, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) do Rio Grande do Sul ficou abaixo da meta em todas as etapas do ensino. Nos anos iniciais do ensino fundamental, o estado registrou 6 pontos, 0,4 abaixo da meta. Nos anos finais, a nota foi de 4,9, e no Ensino Médio, 4,2.
Para reverter esse quadro, a secretária estadual da Educação, Raquel Teixeira, aposta em estratégias como reforço escolar e aulas de recuperação. “O Rio Grande do Sul é o estado com o maior índice de reprovação e abandono, e esse é um dos maiores desafios. Em 2025, teremos estudos de aprendizagem contínua, com aulas de reposição, reforço e progressão”, afirma.
Restrição ao uso de celulares na sala de aula
Outra mudança significativa será a restrição ao uso de celulares em sala de aula, no recreio e nos intervalos. A medida segue a Lei Federal 15.100, sancionada em janeiro, e visa melhorar a concentração e o desempenho dos estudantes. O uso de celulares será permitido apenas para fins pedagógicos e em casos de acessibilidade.
A diretora Veridiana Brustolini destaca que os primeiros dias serão de adaptação. “Os alunos conseguem se concentrar por mais tempo, sem se distrair com os celulares, e interagem mais entre si”, comenta.
O regramento vale para toda a educação básica, da pré-escola ao ensino médio. Em entrevista à RBS TV, o subsecretário de Desenvolvimento da Educação, Marcelo Jeronimo Rodrigues Araújo, ressaltou a importância da nova lei. “A tecnologia tem grande potencial para contribuir com o desenvolvimento das habilidades e competências dos estudantes, mas deve ser usada de forma pedagógica e intencional”, explica.
Uniforme obrigatório e ampliação do turno integral
A partir de 2025, o uso de uniforme será obrigatório nas escolas estaduais. Cada aluno receberá um kit com 10 peças gratuitamente, incluindo camisetas, calças, bermuda, jaqueta e moletom. “É uma questão de segurança, pertencimento e equidade, além de promover economia para as famílias, já que elimina a disputa por roupas”, afirma a secretária Raquel Teixeira.
Além disso, o ensino em turno integral será ampliado. Noventa escolas de ensino médio em 68 cidades terão a jornada ampliada para nove horas diárias, com quatro refeições. A meta do governo é que, até 2026, metade das escolas com ensino médio adote o turno estendido.
Evasão escolar e desafios estruturais
Apesar das mudanças, o ensino público enfrenta desafios. O Colégio Júlio de Castilhos, que nos anos 1990 chegou a ter 5 mil alunos, começa 2025 com menos de 800 matriculados. A diretora Paola Ribeiro aponta fatores como dificuldades no transporte e a necessidade de muitos jovens trabalharem cedo.
“Os alunos de 15 a 16 anos muitas vezes precisam trabalhar, o que dificulta o acompanhamento escolar. Muitos têm jornadas de trabalho exaustivas, e isso impacta no desempenho acadêmico”, explica Paola.
A situação se agravou com a enchente de 2024, que afetou 1.099 escolas no estado. Dessas, 601 sofreram danos estruturais, e cerca de 4 mil alunos precisaram ser transferidos para outras unidades.
Para Antonio Padilha, é fundamental garantir condições adequadas nas escolas. “Não pode faltar professor, merendeira, merenda ou a sala de aula. O grande desafio em 2025 será garantir que as escolas cumpram sua função”, afirma.
Enchentes de 2024: escolas em locais provisórios
Atualmente, oito escolas ainda não retornaram aos seus prédios originais, com os alunos estudando em locais provisórios desde as enchentes de maio de 2024. Cinco dessas instituições estão no Vale do Taquari.
Em Estrela, a Escola Estadual Moinhos, que atendia 160 alunos, foi destruída pela força das águas do Rio Taquari. Dos 160 estudantes, 70 ainda estão matriculados e realizando aulas temporárias em outra escola da cidade.
Em Lajeado, a Escola Estadual Presidente Castelo Branco, com cerca de 900 alunos, está desde setembro de 2023 sem aulas devido aos danos causados pelas enchentes. Os alunos estão sendo acomodados temporariamente na Universidade do Vale do Taquari (Univates).
As escolas Fernandes Vieira (Lajeado), Padre Fernando (Roca Sales), Antônio de Conto (Encantado), Padre Rafael Iop (São João do Polêsine), Nestor Vianna de Campos (Triunfo) e Tereza Francescutti (Canoas) também iniciam o ano letivo de 2025 em locais alternativos. Algumas dessas escolas, como Fernandes Vieira e Tereza Francescutti, já têm previsão de retorno para os próximos meses.
A secretária Raquel Teixeira explica a complexidade da situação: “São casos muito diferentes e talvez demore um pouco mais para a reconstrução. A expectativa é que, até 2025, consigamos encaminhar soluções para todas as escolas afetadas”.
Quanto à reconstrução das instituições, dados do Portal da Transparência indicam que cerca de 35% dos valores prometidos para a educação foram entregues. O governo federal liberou aproximadamente R$ 62 milhões, abaixo dos R$ 491 milhões previstos, enquanto o governo estadual já pagou R$ 176 milhões, cerca de 90% do valor comprometido.
Fonte: G1
Foto: Ilustrativa