Ondas de calor, inundações e recordes de temperatura são reflexos da mudança climática no estado, com previsões alarmantes para os próximos anos
O aumento da temperatura tem gerado uma série de fenômenos climáticos extremos, como ondas de calor, inundações, tornados e temporais mais intensos. Esses eventos têm se tornado mais frequentes ao longo dos últimos anos no Rio Grande do Sul. Um exemplo disso ocorreu em Quaraí, na Fronteira Oeste, onde, oito meses após a maior enchente da história gaúcha, a cidade registrou a temperatura máxima de 43,8ºC, a mais alta de todo o Estado, em mais de um século, desde o início do monitoramento do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet).
Segundo a professora Simone Ferraz, coordenadora do curso de Meteorologia da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ondas de calor são eventos climáticos comuns. No entanto, elas não deveriam ocorrer com a frequência e intensidade observadas atualmente.
“Os modelos meteorológicos já previam uma onda de calor no início de fevereiro, o que é normal. O que mudou nos últimos dez anos é o aumento na quantidade e na intensidade dessas ondas de calor”, destaca Ferraz.
Esse aumento está diretamente relacionado à elevação da temperatura do planeta, causada pela emissão de gases do efeito estufa e pelo aquecimento global. Portanto, o Rio Grande do Sul segue uma tendência mundial, visível ao longo das últimas décadas.
Agravada pela ação humana
De acordo com a especialista, todos os meses de fevereiro entre 2021 e 2024 registraram temperaturas acima da média. A exceção foi 2020, quando o Estado enfrentou os efeitos do fenômeno El Niño, com chuvas mais intensas. O território gaúcho está em uma região particularmente favorecida para o aquecimento no verão. Além do aumento da incidência solar esperado para a estação, a área sofre com a entrada de massas de ar quente e a influência de fenômenos naturais, como o El Niño e o La Niña, que contribuem para a elevação da temperatura.
No entanto, conforme aponta o professor Douglas Lindemann, coordenador do Grupo de Interação Oceano-Atmosfera e Climatologia (GOAC) da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), os fatores naturais estão sendo intensificados pela ação humana:
“Se analisarmos a história do clima desde a Revolução Industrial, podemos ver que, a cada década, o planeta se aquece mais. Todos os dez anos mais quentes registrados ocorreram após 2010. Isso não é algo restrito ao Rio Grande do Sul”, afirma Lindemann.
Francisco Eliseu Aquino, climatologista e professor do departamento de Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), também ressalta que a destruição da vegetação nativa e a degradação de áreas como as margens dos rios, aliadas à exploração de combustíveis fósseis, aumentam a degradação ambiental e intensificam a mudança climática. “A região entre a Argentina, o Paraguai e o Rio Grande do Sul sempre foi quente durante essa época do ano. Porém, especialmente na última década, os recordes de temperatura têm aumentado, com temperaturas frequentemente superiores a 44ºC ou 45ºC, na Argentina e no Uruguai. Essa onda de calor se expande para o Rio Grande do Sul, especialmente na Fronteira Oeste”, explica Aquino.
Aquecimento global: uma panela de pressão
O aumento da emissão de gases de efeito estufa e o aquecimento global têm gerado uma intensificação dos eventos climáticos extremos, que ocorrem com intervalos cada vez menores. “Os estudos climáticos indicam que os eventos que antes ocorriam a cada 50 ou 70 anos agora acontecerão com mais frequência. É como uma panela de pressão: se você aumenta a temperatura, tudo fica mais intenso”, afirma a pesquisadora Simone Ferraz.
Aumento significativo na temperatura
Douglas Lindemann aponta que, nos últimos 30 anos, a temperatura terrestre aumentou em pelo menos 0,5ºC. Embora essa variação possa parecer pequena, é significativa quando se considera o impacto sobre o conforto térmico, a saúde humana e a produção de alimentos. No Rio Grande do Sul, as regiões que mais sofreram com essa elevação de temperatura foram a Metropolitana, Norte, Noroeste e Central. O verão de 2019/2020, por exemplo, foi o mais quente da última década em Porto Alegre, com máximas de até 40,3ºC e 23 dias consecutivos com temperaturas acima de 35ºC.
Previsões para os próximos anos
O clima é um processo lento de resposta, segundo Douglas Lindemann. Os eventos climáticos observados atualmente são reflexos da degradação e da emissão de poluentes das últimas décadas. Se a tendência de aquecimento continuar, as previsões climáticas apontam para uma crescente ocorrência de fenômenos extremos envolvendo chuvas, tanto excessivas quanto escassas. Este cenário representa um desafio tanto para os planejadores urbanos quanto para o setor agrícola.
“Projeções indicam que as chuvas no Rio Grande do Sul se tornarão mais irregulares, com uma distribuição cada vez mais desigual, tanto no tempo quanto no espaço”, explica Lindemann.
Francisco Eliseu Aquino destaca que as inundações de 2023 e 2024 são resultado de um planeta mais quente, e os volumes extremos de precipitação, como os registrados recentemente em São Paulo, além das noites de calor intenso no Rio Grande do Sul, são consequências das mudanças climáticas:
“A última década foi mais quente, tanto no Brasil quanto no Rio Grande do Sul. E essa é uma tendência prevista pela mudança climática”, conclui Aquino.
Como conter o aumento da temperatura?
Diante desse cenário, o pesquisador Aquino acredita que a atual geração não verá uma melhora significativa, a menos que haja uma redução substancial na emissão de gases de efeito estufa. “Para que possamos ver alguma melhoria, seria necessário reduzir em 30% as emissões de gases até 2050 e investir em energias alternativas. Mas, pelo que estamos fazendo agora, não acreditamos que conseguiremos. O que podemos afirmar é que, se a tendência continuar, a temperatura média global deve subir 2ºC até 2050, o que resultará em eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, incluindo novas enchentes no Rio Grande do Sul”, alerta Aquino.
Fonte| GZH
Foto| Ilustrativa