Crânio quase completo de dinossauro de 230 milhões de anos, escavado em Santa Maria, resolve um debate científico de 25 anos e revela detalhes inéditos sobre sua alimentação e comportamento.
Pesquisadores da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) desvendam a verdadeira face do Saturnalia tupiniquim, um dos dinossauros mais antigos conhecidos no planeta, com cerca de 230 milhões de anos. O estudo, que teve como base fósseis escavados em 2018 no sítio fossilífero Cerro da Alemoa, na cidade de Santa Maria, trouxe à tona um crânio quase completo de um dos primeiros representantes da linhagem dos dinossauros. A descoberta tem gerado grande impacto na paleontologia e oferece novas pistas sobre o passado remoto da Terra.
Os fósseis pertenciam a três indivíduos da espécie, sendo um deles apelidado de “Gracinha” pelos pesquisadores, em virtude de sua morfologia delicada. Essa peça-chave permitiu o aprofundamento do estudo, revelando características inéditas do Saturnalia tupiniquim, como um crânio curto e afunilado, além de dentes em forma de punhal e serrilhas, que indicam uma dieta carnívora. Tais traços são incomuns para a linhagem dos dinossauros gigantes, que normalmente eram herbívoros e possuíam pescoços longos. Em contraste, o Saturnalia mantém uma estrutura corporal reduzida, com cerca de 1,5 metro de comprimento, além de hábitos carnívoros que remetem a seus ancestrais mais primitivos.
O estudo foi conduzido por Lísie Damke, durante seu Mestrado em Biodiversidade Animal na UFSM, com orientação do Dr. Rodrigo Temp Müller, do CAPPA/UFSM. A pesquisa também contou com a colaboração de especialistas renomados, como Dr. Max Cardoso Langer, da USP, e Dr. Átila Augusto Stock Da-Rosa, da UFSM.
Fim de um Debate de 25 Anos
O crânio quase completo do Saturnalia não apenas trouxe detalhes sobre a alimentação do dinossauro, mas também resolveu um debate científico que perdurava desde 1999. Naquele ano, os primeiros ossos cranianos da espécie foram descritos, e os pesquisadores sugeriram que o Saturnalia tupiniquim possuía um crânio proporcionalmente pequeno, comparado a outros dinossauros da mesma época. Em 2019, tomografias de materiais antigos reforçaram essa ideia, mas faltava uma evidência definitiva.
Agora, com o novo fóssil, os cientistas confirmaram que o Saturnalia realmente tinha um crânio pequeno, adequado para movimentos rápidos e ágeis, facilitando a captura de presas. Esta descoberta oferece novas pistas sobre a transição de pequenos carnívoros para os gigantes herbívoros que surgiriam milhões de anos depois.
Além de resolver uma importante controvérsia científica, a pesquisa abre novas possibilidades para compreender a vida na Região Central do Rio Grande do Sul há mais de 200 milhões de anos.

Fonte | G1 RS