Técnica inovadora, oferecida pelo SUS, permite a retirada de tumores da base do crânio com menos riscos e uma recuperação mais rápida
Uma pequena cicatriz ao lado do olho: esta é a única marca deixada em quem passa por uma cirurgia neuroendoscópica transorbital, uma técnica revolucionária que permite a retirada de tumores do crânio por meio dos olhos. O procedimento, realizado pela primeira vez no Rio Grande do Sul no Hospital São José, da Santa Casa de Porto Alegre, é uma novidade no estado e foi realizado em novembro, com a vantagem de ser oferecido gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS), além de estar disponível para planos de saúde e particulares.
Segundo o neurocirurgião Antônio Delacy, que liderou a operação, a principal vantagem dessa abordagem é que, ao contrário da craniotomia tradicional, não é necessário realizar a remoção de grandes pedaços de osso do crânio. “Não se mexe na musculatura, o que normalmente causa muita dor no pós-operatório. Além disso, a incisão é menor, o que reduz os riscos de infecção, sangramentos e o tempo de hospitalização”, explica.
A cirurgia, que utiliza um endoscópio para acessar o crânio por meio da órbita ocular, foi acompanhada pela reportagem da RBS TV. Durante o procedimento, o paciente recebe anestesia geral, e a intervenção pode durar cerca de cinco horas. “A cada 20 ou 30 minutos, paramos para permitir que o olho se recupere”, detalha Delacy.
Embora a cirurgia tenha se tornado mais conhecida recentemente, a Sociedade Brasileira de Cirurgia de Cabeça e Pescoço aponta que há apenas um relato semelhante, ocorrido em Barretos, São Paulo. O uso dessa técnica é indicado principalmente para tumores benignos localizados na base do crânio, que podem comprimir o cérebro ou suas estruturas ao redor, causando sintomas como dores de cabeça, alterações visuais, auditivas ou até paralisias.
Juliana Nunes Waskow, de 27 anos, foi uma das pacientes que se beneficiaram da técnica. Moradora de Chuvisca, no interior do Rio Grande do Sul, ela passou por um procedimento para a retirada de dois tumores benignos, após sofrer com fortes dores de cabeça. “Eu já não conseguia mais controlar a dor, precisava ir ao posto de saúde para tomar medicamento na veia”, lembra Juliana, que temia os efeitos do pós-operatório, especialmente pela experiência da mãe, que passou por uma cirurgia mais invasiva.
Apesar do risco de crescimento do tumor e da pressão sobre o cérebro, o neurocirurgião Delacy explica que tumores como o de Juliana, embora benignos, precisam ser tratados para evitar complicações. “Embora não cause metástase, o tumor pode afetar as funções cerebrais à medida que cresce”, alerta.
O impacto da cirurgia não é apenas no aspecto médico, mas também financeiro. De acordo com Delacy, a técnica representa uma economia significativa para o SUS, pois não requer o uso de equipamentos caros, como robôs ou máquinas especializadas, e reduz a necessidade de insumos, como placas e parafusos, comuns em cirurgias mais invasivas. “Menos insumos significam menos custos para os pacientes e para o sistema de saúde”, conclui.
Juliana, que teve apenas um pequeno inchaço nos olhos após o procedimento, já voltou ao seu aspecto normal e se recupera bem. Com o sucesso da técnica, a expectativa é que mais pacientes possam se beneficiar dessa abordagem inovadora, com menos riscos e uma recuperação mais rápida.
Fonte | G1 RS