Cercas elétricas, câmeras de longo alcance, drones termais e até rebanho com colar de GPS são usados para tentar proteger o patrimônio. Fazendeiros contam que, em um ano, 850 animais foram furtados e o prejuízo chegou a mais de R$ 2,5 milhões.
No sul do país, pecuaristas estão se unindo e contando com a tecnologia para evitar o roubo de gado na fronteira com o Uruguai. O repórter Giovani Grizotti acompanhou um desses roubos, que aconteceu no fim de agosto.
Cercas elétricas, câmeras de longo alcance, drones termais e até rebanho com colar de GPS são usados para tentar proteger o patrimônio.
O crime foi narrado em tempo real em grupo de pecuaristas por meio de mensagens em Santana do Livramento, no Rio Grande do Sul. Eles contam que este foi 15º roubo na região, desde 2023. Ao todo, 850 animais foram furtados e o prejuízo chegou a mais de R$ 2,5 milhões.
Diante de tanta insegurança, os fazendeiros resolveram se unir para tentar evitar os roubos de animais, o chamado abigeato (crime de subtrair animais de propriedade privada em zona rural) e investiram em tecnologia.
No roubo da semana passada, por exemplo, uma vítima foi informada por um aplicativo de celular que o gado estava saindo do perímetro da propriedade. Isso só foi possível por causa de um colar com GPS, que fica acoplado ao animal e monitora a localização real – um investimento de R$ 50 mil.

Os ladrões invadiram a área vizinha com o gado roubado e um dos pecuaristas trocou tiros com os bandidos. A vítima contou que essa foi a quinta vez que teve sua propriedade invadida e que já perdeu mais de 50 cabeças de gado – um valor estimado em R$ 350 mil. No roubo da semana passada, os 20 animais foram recuperados. Dessa forma, o valor investido em GPS “já foi pago” com a tentativa de roubo.
“Eu hoje não consigo mais viver aqui nessa região com gado sem GPS. Eu não fico mais em paz”, diz a vítima.
Outro pecuarista também contabilizou as perdas: os ladrões furtaram quatro vacas – um prejuízo de R$ 40 mil. Na propriedade, vários equipamentos auxiliam na segurança, como câmeras de alta resolução e de longo alcance, cerca elétrica e um drone termal que consegue voar a uma distância de até 12 quilômetros.
“Hoje a gente lança mão de toda tecnologia que a gente pode. Não tem como a gente numa área de mil hectares percorrer tudo isso a pé”, explica o pecuarista.
Até quem é pago para vigiar se protege. Um segurança a cavalo usa um colete a prova de balas.
Há também segurança armado que fica numa espécie de torre de controle, monitorado tudo durante a madrugada.
“A gente vive um clima de tensão 24 horas por dia”, conta um segurança.
Os crimes acontecem ao longo da chamada fronteira seca entre Brasil e o Uruguai – uma faixa de 200 quilômetros de terra entre os dois países, sem a presença de um rio ou lago.
“É muito fácil o trânsito de animais e o trânsito de pessoas. E os bandidos se aproveitam dessa facilidade para efetuar o roubo do gado”, explica o pecuarista.
As polícias do Brasil e Uruguai estão trabalhando em conjunto. Elas dizem que o roubo nessa região é um fato isolado e que do ano passado pra cá houve uma queda de 20% nas ocorrências, mas que já existe uma investigação para prender a quadrilha.
“O que nós conseguimos apurar de imediato é que há uma miscigenação entre eles. Eles se misturam. Tem uruguaios, tem brasileiro. A distância é um desafio, mas estamos nos organizando para montar grupos, equipes para ter mais tempo em campo mesmo. Isso é uma das medidas que está sendo tomada”, diz Guilherme Nunes, delegado de repressão aos crimes rurais e abigeato / RS.
O Uruguai aumentou a pena para o crime.
“No Uruguai, durante os anos se agravou o delito de roubo de gado e a pena subiu para 8 anos. Anteriormente era de 6 anos”, diz Claudio Ferraz, comissário da polícia nacional do Uruguai.
“Isso é uma bomba com pavio aceso. Mais dia, menos dia um de nós vai morrer”, diz um pecuarista.
“O direito de defesa é legítimo, só que a gente não recomenda o confronto. Caso haja uma invasão na sua propriedade, acionar imediatamente a polícia que a gente tem meios de chegar rapidamente e a polícia agir pra prender esses bandidos”, afirma Guilherme Nunes, da delegacia de repressão aos crimes rurais e abigeato (DCRAB).
“Nós somos produtores rurais. O que a gente sabe é trabalhar no campo. A gente não veio para cá pra viver esse clima de guerrilha. A gente veio para cá pra trabalhar”, diz um pecuarista.
Texto: Fantástico/g1